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[RESENHA] Placebo Junkies, de J. C. Calerson


Quando compramos um remédio na farmácia, ele já vem pronto com as indicações de efeitos colaterais e dosagens escritas na bula. Mas como é que os laboratórios chegaram a essa precisão? Mesmo os mais eficazes testes em animais não seriam capazes de aferir com tamanha exatidão como tais químicas reagem no corpo humano. Sendo assim, a única solução para isso é que as próprias pessoas testem os novos fármacos, há risco de morte? Sempre! Então quem faria isso? Cobais profissionais que ganham a vida entre seringas e potes coletores de urina.

Assim é a vida de Audie, protagonista do livro Placebo Junkies, bem, na verdade é Audrea, mas detesta ser chamada assim. Ela não terminou a escola e por causa de uma mãe drogada teve que começar a ganhar a vida dando o próprio sangue — literalmente — muito cedo, com apenas 17 anos. Dividindo um apartamento com outros ratos de laboratório, Audie tem uma melhor amiga chamada Charlotte e um namorado chamado Dylan. Ele, por sua vez, não escolheu essa vida, está doente e vive nos hospitais e clinicas em busca de uma cura, o salário no final do mês pouco importa.

É por causa do estado frágil de saúde dele que Audie resolve concordar com o plano maluco e mortal de Charlotte: entrar no maior número de testes clínicos que conseguirem e juntar uma bolada de dinheiro no mínimo de tempo possível. Para Audie essa é a possibilidade de um sonho virar realidade, com o dinheiro ela pretende comprar o melhor de todos os presentes de aniversário para Dylan. A intenção é comemorar os 18 anos dele num SPA na Patagônia, onde os dois poderão passar uns dias como dois adultos apaixonados normais, sem doenças e sem efeitos colaterais.

"Ele é meu próprio resultado improvável, se você pensa em estatística. Meu próprio milagre, se você não pensa assim. Os dois modos servem para mim; não sou eu que vou criticar algo tão bom."


O livro Placebo Junkies tem a intenção — ou não — de contar a história de cobaias humanas, que entre uma injeção e outra, só querem viver como adolescentes normais. A ideia do livro parece excelente, a capa e o título com certeza chamam atenção, no entanto, a história demora um pouco para fisgar o leitor. O ritmo imposto pela autora não é muito fluido e mesmo gostando dos personagens algumas pessoas podem achar difícil continuar a leitura.

O esforço definitivamente compensa para aquele que passar da página 100, a dinâmica melhora consideravelmente e a reviravolta na história é totalmente inesperada. Não tem como falar dela sem estragar o que está por vir, mas com certeza surpreenderá mesmo os leitores mais céticos. Principalmente aqueles que reviraram os olhos depois da comparação, um tanto nada a ver, que fizeram desse livro com Trainspotting. Aliás, se tratando de ritmo, essa analogia não deveria nem ter sido pensada.

"É um tipo de intimidade especial, acho. Todo o amor juvenil e o sexo adolescente habitual, claro, mas algo mais forte que isso também, algo rasgado em carne viva, depois cicatrizado. Não me importa que isso enoje você, eu acho romântico. Ele me viu no meu pior, e ficou. Ficou enquanto eu jorrava, vomitava, cagava, babava, gemia. E eu fiz o mesmo por ele. Nós já amamos o pior um do outro, por isso temos o melhor um do outro."

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Mariana Baptista é criadora do blog Uma vida por Livro, jornalista por formação, tradutora e revisora por profissão e poeta por paixão.

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