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[RESENHA] A Cor Púrpura, de Alice Walker


Foi automático abraçar o livro da Alice Walker logo após ter lido suas últimas palavras. Eu fiquei tão envolvida e tão absorta na escrita que senti como se os personagens fizessem parte da minha família, então acabou sendo uma reação espontânea. Como se a Celie fosse a minha irmã e, depois de muitos anos afastadas e ciente de todas as dificuldades que ela passou, eu finalmente a tivesse reencontrado e dado aquele abraço apertado, substituindo as palavras de alívio "Acabou. Agora tudo vai ficar bem".

Celie é uma jovem negra, nascida de uma família humilde e em uma cidade, do sul dos EUA, segregada pelo preconceito. Desde menina teve que conviver com diversas formas de preconceito - por ser negra, por ser mulher, por ser uma mulher negra - de violência e abusos sexuais. Aos quatorze anos seu próprio pai começou a molestá-la e dessa relação, que eu nem tenho palavras para descrever tamanho a minha repulsa, nasceram duas crianças. Primeiro foi uma menina, depois um menino. Mas ambos foram levados de seus braços pelo seu pai. Celie aguentava tudo de cabeça baixa, dotada de uma personalidade submissa, a jovem nunca pensou em enfrentar o homem que frequentemente a estuprava, muito menos em pedir ajuda.

Essa personalidade da protagonista muitas vezes me deu vontade de enfiar as mãos pelas páginas para, como qualquer irmã faria hoje em dia, dar-lhe um belo de um puxão de orelha e umas sacudidelas. O espírito combativo da Celie só começa a aparecer quando ela repara que seu pai estava prestando cada vez mais atenção na sua irmã mais nova, a Nettie. Mas ainda, sim, é um espírito tímido e ingênuo que é apagado rapidamente com a chegada do Sinhô_.

"Ele bate em mim como bate nas criança. Só que nas crianças ele nunca bate muito forte. ele fala, Celie, pega o cinto. As crianças ficam lá fora olhando pelas frestas. Tudo o queu posso fazer é num gritar. Eu fico que nem tábua. Eu falo pra mim mesma, Celie, você é uma árvore. É por isso queu sei que as árvores têm medo dos homem." (p. 37)

Mas o quê? Esse é o nome do personagem, um simples _ ? Sim, é. Pelo menos na visão da Celie, que durante boa parte do livro desconhece o nome de muitos homens da história, incluindo do seu próprio pai que simplesmente chama de "o Pai", o que coloca em destaque o machismo da época em que a mulher não tinha direito de questionar nem o primeiro nome dos homens com quem convivia. A Cor Púrpura é narrado em primeira pessoa pela protagonista por meio de cartas que ela escreve para Deus. Como trata-se de uma mulher que não teve direito à educação, o leitor vai estranhar o texto repleto de erros de concordância e ortografia. Mas ao mesmo tempo ficará fascinado com a veracidade que a história toda ganha com a linguagem e a estrutura da narrativa.


Sinhô_ aparece para pedir a mão de Nettie em casamento. A princípio, Celie fica aliviada com possibilidade de tirar Nettie dos olhos de cobiça de seu pai, porém o patriarca de sua família nega o pedido do Sinhô_ e diz que se ele precisa de uma mulher, ele pode levar a Celie. Assim, a jovem acaba casando com um homem de quem não sabe nada, apenas que tem três filhos para criar e que é apaixonado por uma cantora chamada Shug Avery. A vida de casada acaba sendo o mesmo jogo, só mudando alguns jogadores, já que agora ao invés de ser violentada e castigada pelo seu próprio pai Celie sofre nas mãos de um completo desconhecido.

"E você como vai, querida irmã? Os anos vieram e se foram sem uma palavra sua. Só o céu acima das nossas cabeças é o que temos em comum. Eu olho muitas vezes para ele como se, de alguma maneira, refletida na sua imensidão, um dia eu me encontrarei olhando nos seus olhos. Os seus queridos, grandes, límpidos e lindos olhos." (p. 223)

A protagonista, então, começa a viver uma vida baseada na inércia e na submissão o que fica cada vez mais evidenciado quando o filho mais velho do Sinhô_ casa com a indomável Sofia, a personagem que se tornou a minha favorita. Sofia é uma mulher que não pensa duas vezes antes de comprar uma briga (não só com armas verbais como também com punhos) com quem quer que seja para se defender e fazer apenas aquilo que gosta e acha direito. É Sofia quem começa a abrir os olhos da protagonista e fazê-la entender que só porque ela é mulher não precisa fazer tudo o que os homens desejam.

No entanto, entender é uma coisa, começar a agir diferente é outra. Na faculdade, o que mais escutei durante as aulas de comportamento do consumidor foi: a coisa mais difícil de mudar em uma pessoa é o hábito. E habituada a ser enxergada como um nada, alguém sem valor, Celie terá uma longa trajetória a percorrer para finalmente conquistar o direito de ser reconhecida como alguém. Pasmem, que quem vai ajudá-la durante todo esse processo de mudança comportamental será a amante de seu marido, Shug Avery, que passa a morar com eles depois de ter graves problemas de saúde. Shug também será a responsável por despertar sentimentos e a sexualidade da personagem. Além de mulher e negra, Celie também se descobre homossexual.

"Eu num sei nada sobre isso. Sinhô_ trepa encima de mim, faz o serviço dele, dez minuto depois a gente tá dormindo. A única vez queu sinto uma coisa atiçando lá embaixo é quando eu penso na Shug. Mas é como correr até o fim de uma estrada e voltar sozinha, num dá em nada." (p. 84)

Apesar dos temas abordados na obra e da estrutura do texto terem me agradado muito, o que mais gostei na história de Walker foi que os personagens são humanos. O crescimento da Celie ao longo de toda história é muito evidente, porém não é só ela que muda ao longo da narrativa. Todos os personagens crescem à sua maneira e mesmo cometendo as mais diversas atrocidades eles acabam, de alguma forma, conquistando redenção aos olhos do leitor.

"Se ao menos eu tivesse compreendido então o que eu sei agora! ele falou. Mas como poderia? Existem tantas coisas que nós não compreendemos. E tanta infelicidade acontece por causa disso." (p. 225)

CONVERSATION

18 comentários:

  1. Adorei a resenha, nunca li esse livro mas vejo muitos e muitos comentários positivos. Adorei o bl e já estou participando, beijos.

    Visite: http://carpediemmica.blogspot.com.br/

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  2. Depois de ler sua resenha tão empolgante, estou me perguntando como ainda não li esse livro. Claro que já ouvi vários comentários, mas a sua resenha é a primeira que leio e agora despertou muito o meu interesse. A temática é muito importante e já fiquei curiosa sobre o desenvolvimento dos personagens.
    Beijos, Fer

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  3. Eu já assisti o filme e não sabia que tinha um livro. Adorei saber que foi relançado e com certeza vou querer ler. O tema racismo, apesar dos tempos modernos, ainda é pertinente e precisa ser combatido através de todos os meios. Adorei a dica!!!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  4. Oie! Nossa, esse livro tem despertado tanto a minha curiosidade, cada vez fico com mais vontade de lê-lo. E a parte em que a Cellie se descobre homossexual é nova para mim e fiquei curiosa para ver isso na trama. Acho muito interessante esse método de ela enviar as cartas para deus e parece ótimo poder ver a evolução da personagem de alguém muito submissa para alguém que começa agir. Essa parte dos abusos e de ter filhos do seu próprio pai me lembra muito a história Preciosa, que tem até filme. Achei que a parte de muitos erros ortográficos me perturbaria, mas pelo que vi nos quots ela só me inserirá mais dentro da história. Quero ler para já.

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  5. Oi, tudo bem?
    Esse livro é a minha cara, e estou louca para ler. Estou com ele em casa, e vai ser uma das minhas próximas leituras. Espero também me emocionar e sentir vontade de abraçar o livro quando terminar a leitura. Adorei sua resenha e ver seu ponto de vista, aliais tão positivo. Estou com altas expectativas. Ótima resenha.

    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

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  6. Olá!
    Quero muito ler A Cor Púrpura. Fiquei muito contente em saber que você tenha abraçado o livro assim que terminou, acho que farei o mesmo quando ler.
    A Celie parece ser uma personagem incrível. Bem construída e marcante. Espero que eu aprecie assim a leitura e me emocione muito.
    Obrigada por essa resenha linda.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  7. Olá, mesmo a capa não me agradando nem um pouco eu achei a história do livro muito instigante. Gostei muito de ver a sua resenha e saber a sua opinião sobre o livro, fiquei interessada nele. Não sei bem se eu gostaria da história quando terminasse a leitura, mas que quero ler, isso eu quero.

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  8. Oi, tudo bem?
    A premissa do livro é bem interessante, mas agora que li seu livro não sei se é a leitura ideal pra mim.
    Apesar de saber das dificuldades que a personagem enfrentava, do quanto a sociedade da época era machista e preconceituosa, o fato de a personagem sofrer tanto e se manter completamente passiva na maior parte da história possivelmente me irritaria muito durante a leitura.
    Amei essa nova edição, está linda!
    Caso eu venha a ler espero gostar muito da história, já que ela trata de temas muito interessantes!

    Beijos :*
    http://livrosesonhos.com/

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  9. Oiie, tudo bem?

    Adorei a capa, e a história então, me deixou com muita vontade, é um livro que ao meu pensar todos deveriam ler. Esse é um livro que a gente quer entrar nas páginas do livro e meter a mão na cara desse pai, chato, nojento affe só de ler a resenha dá uma raiva, imagina eu ler o livro? Mas eu quero mesmo .

    Bjs

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  10. Oi, adorei a resenha. A premissa do livro é muito interessante e quero muito ler e como ultimamente só vi criticas positivas, eu estou bem curiosa para ler, já que retrata do machismo da epoca e das dificuldades que a personagem passa. Me deu uma vontade louca de lê-lo agora,kkkkk. Parabéns pela resenha.
    bjus

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  11. Oie!
    Sinceramente, não sei se tenho vontade de ler esse livro. Só quando começa a contar sobre o abuso e o preconceito, já me deu uma dorzinha no coração, e não me senti animada para ler o livro :( Mesmo com uma trama bem interessante, não é um livro para mim.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

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  12. Adorei a premissa do livro. Parece intenso e triste, por ser o tema de abuso, mas acho uma leitura válida. Quando ler, me sentirei como você, com vontade de entrar no livro e resolver a submissão da personagem, e também irei adora a Sophia e sua força! Não conhecia o livro, mas a capa é maravilhosa e sua resenha me deixou curiosa pra conferir.

    Virando Amor

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  13. Olá, eu sempre ouvi falarem muito bem desse livro, ele é um clássico da literatura feminista e trás um assunto delicado e importante, ainda mais para a época que ele é relatado. Espero um dia ter uma oportunidade de conferir a obra, espero gostar tanto quanto todo mundo gosta dele.

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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  14. Adoreeeei a resenha. Sem palavras. Muito identificada com os pensamentos, principalmente essa vontade de enfiar a mão dentro do livro para chacoalhar a personagem. Tenho essa vontade diversas vezes. Nunca li o livro, apesar de já ter escutado o nome, nunca soube realmente do que se tratava. Achei interessante, mas não sei se teria a paciência certa para aguentar todo o sofrimento da personagem.
    Beijos!
    Laury

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  15. Olá!

    Já havia ouvido falar desse livro, mas náo conhecia o enredo. A estoria muito me atraiu e achei bastante interessante ter os erros, o que torna a narrativa bastante real para os leitores. Uma estória triste, mas que me parece muito real em tempos antigos. Sem contar que abusos assim acontecem muito em tempos atuais, com certeza um livro que eu gostaria de ler.


    Beijinhos!
    Cantinho Cult

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  16. Oie! Sua resenha ficou fantástica e, no início, uma curiosidade enorme me fez ter vontade de ler a obra, mas, depois de saber toda luta enfrentada pela personagem, não sei se eu teria coragem para passar por todas as páginas. Quer dizer, acredito no quão difícil deve ter sido a vida da moça, sofrendo desde cedo, mas esse negócio de submissão - e sei que era o único modo de viver que ela conhecia na época - me revira o estômago. Talvez futuramente eu tente ler, apesar dos temas fortes abordados pela autora. Que bom que a leitura foi tão boa para você a ponto de parecer estar convivendo com a personagem. *-*

    Beijos,
    Fernanda Goulart.

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  17. Já tinha ouvido falar do filme, mas ate hoje não sabia da existência do livro.
    Acho que nunca vi a sinopse do filme, então não sabia do que se tratava, e agora fiquei fascinada pela história.
    Vou procurar o filme, e quem sabe, futuramente ler o livro também.

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  18. Faz muito tempo que assisti o filme e fiquei fascinada pela história. É de sofrer por tudo o que Cellie passa, mas lindo ver como as coisas mudam. Por esse motivo, fiquei com vontade de ler o livro.
    Sua resenha me fez ficar pensando que durante muitos momentos ficarei com aquele gosto amargo de coisas presas na garganta... principalmente ao pensar que uma historia dessas é de tanto tempo atrás e ainda assim tem muita coisa que em pleno 2016 ainda acontecem...
    Acho que vai valer muito a leitura!
    Beijinhos,
    Lica
    http://amoreselivros.com.br

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